Desde o dia 20 de janeiro de 2003, cariocas e turistas não precisam mais vencer os 220 degraus que os separam da estátua do Cristo Redentor. No dia de São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, um dos principais símbolos da cidade e do país ganhou acesso mecanizado – um sistema que integra elevadores e escadas rolantes – como alternativa à escada. Além de dar maior comodidade aos visitantes, a conclusão das obras facilitou o acesso de idosos e de pessoas com dificuldade de locomoção. Essa foi a segunda fase de um projeto iniciado em 1999, quando a estátua foi recuperada, ganhou proteção especial e nova iluminação.

 
Elevadores
Foram instalados três elevadores panorâmicos, cada um com capacidade para 13 pessoas ou até uma tonelada. O acesso é feito por uma área que atende tanto aos visitantes que chegam do estacionamento, quanto os que desembarcam na plataforma de trem da Estrada de Ferro do Corcovado. O passeio já começa aí, pois a torre de 33 metros de altura descortina a primeira vista da cidade.

A torre recebeu um revestimento especial, com chapas metálicas galvanizadas, recheadas com uma camada de lã de rocha – material que não pega fogo e nem absorve calor. Essa proteção evita o aquecimento da parte interna dos equipamentos que poderiam ter sua operação prejudicada pelo calor.

A viagem leva cerca de 20 segundos e tanto a velocidade quanto a capacidade dos elevadores foram calculadas para que a espera máxima, em momentos de pico, não ultrapasse seis minutos. Além disso, na hora de eleger o equipamento mais adequado, a preocupação com o meio ambiente e a economia de energia foram fundamentais. Por isso, a escolha recaiu sobre o lançamento da Elevadores Otis, o modelo Gen2. Importados da França, os elevadores não têm casa de máquinas, já que os tradicionais cabos de aço de sustentação foram substituídos por cintas revestidas de poliuretano – material que dispensa o uso de óleos lubrificantes. Além disso, o consumo elétrico ficou reduzido em cerca de 30%.

Para garantir a segurança dos visitantes, os elevadores são monitorados pelo software REM (Sistema de Monitoramento Remoto), que aponta possíveis problemas na operação e possui um sistema de viva voz com conexão direta com uma Central de Atendimento ao Cliente. A capacidade real desses elevadores é doze vezes maior que a exigida. Tudo isso, com um mínimo de ruído – no máximo 62 decibéis, nível equivalente ao de uma conversa comum.

Escadas rolantes
Para completar o acesso à estátua, foram instaladas quatro escadas rolantes – duas para a subida e duas para a descida. Fabricadas na Alemanha, também pela Elevadores Otis, elas têm 16 metros de comprimento e 30 graus de inclinação, com uma velocidade de 0,5 m/s. Cada dupla de escadas vence um desnível de 6 metros e é interligada por passarelas que conduzem os visitantes ao monumento. Além de uma proteção lateral para evitar acidentes, as escadas têm dispositivos especiais, como alumínio anti-derrapante nos degraus, resistentes às intempéries comuns a uma altitude de 700 metros, como temporais e ventos de até 140 quilômetros/hora e garantem total segurança. O ruído máximo produzido será ainda menor que o dos elevadores: 58 decibéis.

Uma obra "invisível".
Para não descaracterizar o Cristo Redentor, uma imagem que o carioca admira de diferentes partes da cidade, foram feitos estudos para minimizar o impacto visual da nova estrutura. Assinado pelo arquiteto Maurício Prochnik, o projeto foi idealizado para que elevadores e escadas rolantes acompanhassem a topografia da montanha e, assim, ficassem camuflados atrás das árvores, na parede norte. Para torná-los invisíveis, todos os equipamentos são pintados de verde com tinta anti-corrosiva e têm vidros especiais para evitar reflexos dos raios solares.
A única parte visível é em aço especial do tipo cortem, com alta resistência à corrosão atmosférica. É justamente a estrutura que sustenta as escadas rolantes e as passarelas dos níveis intermediários.

Contenção de encostas
Antes de se começar as obras do acesso, foi preciso tomar um cuidado extra: fazer a contenção das encostas do morro do Corcovado. A medida, realizada pela GeoRio, preparou o local para receber o peso extra da estrutura. Tais medidas, no entanto, deveriam ser tomadas de qualquer forma para evitar rachaduras nas encostas do morro. Na etapa seguinte, foram feitas as fundações e as estruturas de sustentação da torre dos elevadores e das escadas rolantes. Os operários enfrentaram condições adversas para realizar todas as tarefas, praticamente fazendo rappel para acessar os locais de trabalho.

 
Durante as obras, uma sinalização preventiva e informativa orientou os visitantes sobre as áreas restritas aos operários e acessos alternativos ao monumento. Uma rampa provisória foi instalada para garantir o conforto dos turistas que chegavam ao topo do Corcovado de trem.

Com a finalização do projeto, o monumento passou a contar com um recurso a mais para oferecer aos visitantes: a sinalização turística. Foram instaladas placas no mirante para mostrar os principais pontos turísticos, a partir do ponto de vista do visitante.

 
O meio ambiente sempre esteve entre as principais preocupações no desenvolvimento do projeto. Por isso, foi encomendado a uma equipe de professores de diversas especialidades da PUC-Rio, o relatório de Estudos Ambientais sobre o impacto dos elevadores e escadas rolantes no Morro do Corcovado. Com tudo reunido, o projeto foi discutido e aprovado por uma equipe de técnicos de várias instituições - Prefeitura do Rio de Janeiro/Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Feema, Ibama, IPHAN, Arquidiocese do Rio de Janeiro e FRM - que analisaram os diferentes aspectos de todas as ações propostas pelo projeto.

Ao desenvolver o relatório de impacto ambiental, foi possível fazer um diagnóstico da flora local. Ele revelou que boa parte das espécies que habitavam a área não são nativas. A ação do homem transformou a área, originalmente de Mata Atlântica, em uma grande mistura. Muitas delas, chamadas oportunistas, foram plantadas por visitantes que deixaram no caminho sementes de frutas, como a tangerina.

Inicialmente, foi previsto que 26 árvores e arbustos seriam afetados pelas obras. Porém, com a conclusão do trabalho, o saldo foi positivo: apenas quatro árvores, que não eram nativas, foram retiradas. Nos demais casos, a poda resolveu o problema. Ao mesmo tempo, foi implantado um plano de recomposição ambiental que contemplou a vegetação do local com exemplares da Mata Atlântica. A grande vantagem é que, além de recuperarem a flora original, elas são mais adequadas ao meio ambiente do Corcovado e ajudam na fixação do solo.

A fauna do morro também não escapou da convivência com o homem. Muitos animais que habitavam a Floresta da Tijuca foram atraídos por restos de comida deixados pelos visitantes. Para evitar que isso continuasse, a coleta de lixo foi avaliada e novas lixeiras foram disponibilizadas. Além disso, está sendo implantado um sistema de coleta mais freqüente.

Limpeza e organização
Além de facilitar o acesso, a segunda fase do projeto também melhorou as condições de visita para o turista. Foi realizado um estudo para adequar o local ao provável aumento na visitação. Em 2002, o Cristo Redentor recebeu 750 mil visitantes e a previsão é de que o acesso mecanizado provoque um aumento de até 20%.
 
Para minimizar o impacto das obras, foi oferecido um curso de educação ambiental a todos os funcionários que participaram dos trabalhos. Divididos em turmas, todos tiveram aulas teóricas sobre a importância do meio ambiente e os cuidados para sua preservação. Por fim, junto com suas respectivas famílias, passaram um dia como visitantes do Corcovado e ainda fizeram trilhas na floresta. O resultado prático é que todos viraram ferrenhos defensores da natureza.

Além disso, mesmo antes da conclusão do projeto, os parceiros decidiram continuar com um trabalho no Parque Nacional da Tijuca. Desta vez, com o projeto Educação por Natureza, que tem como objetivos principais a capacitação dos professores para a visitação, a dinamização do Centro de Visitantes, a formação de monitores ambientais e a sinalização de trilhas. O projeto também pretende mobilizar voluntários e deve levar milhares de estudantes para visitar o Parque. Para se ter uma idéia do quão importante é a preservação do local, a Mata Atlântica foi declarada Reserva da Biosfera, pela Unesco, e Patrimônio Nacional, pela Constituição.
 
A primeira etapa do projeto Cristo Redentor aconteceu em 2000, quando a estátua foi recuperada e ganhou uma proteção especial, que vai ser fundamental na sua conservação. O resultado final pôde ser conferido por toda a cidade desde o dia 23 de março daquele ano, um domingo de Páscoa. Na ocasião, foi acionado o novo sistema de iluminação que valorizou o trabalho realizado no monumento.

A ação começou com uma limpeza completa do monumento e das escadarias do mirante. Em seguida, todas as superfícies da estátua que estavam comprometidas foram consertadas e preparadas para receber a nova iluminação. Os novos projetores destacaram o tom esverdeado do mosaico de pedra-sabão que cobre o corpo do Cristo Redentor.

Mesmo envolta por andaimes, a estátua foi palco para uma declaração de amor ao Rio de Janeiro. O ator Marcos Frota e um grupo de alpinistas profissionais formaram um coração verde e amarelo que brindou os turistas que visitavam o Corcovado.

Mas é no interior da estátua que está a grande novidade desta etapa: a proteção catódica. Trata-se de uma rede de titânio que, quando eletrificada, atrai todo o sal da argamassa do Cristo e protege o monumento contra a corrosão.

Proteção catódica
Para garantir a melhor conservação da estátua, foi necessário buscar uma tecnologia utilizada na extração de petróleo e na construção de navios e levá-la para o monumento. Uma tela de titânio - doada pela empresa norte-americana Corrpro Inc. - está revestindo todo o interior da estátua. Trata-se da proteção catódica, fundamental para a conservação do monumento, pois combate um poderoso inimigo: o sal.

A argamassa que forma o Cristo é uma eficiente mistura de areia, açúcar e óleo de baleia. Comum à época da sua construção, a composição carrega também um componente muito agressivo: o cloreto de sódio. Ao longo dos anos, o sal da argamassa estava oxidando a estrutura metálica que sustenta o concreto.

A proteção catódica entra em ação quando a tela é eletrificada. Ela ganha carga positiva e atrai as partículas de cloreto de sódio - isto é, o sal - que são negativas. Dessa forma, a estrutura metálica que sustenta a estátua fica livre da ação desse agente corrosivo, que passa a se alojar em torno da proteção catódica.

Limpeza
Para lavar o Cristo Redentor, foi necessário recorrer a equipamentos especiais, além de vários testes e análises laboratoriais. A Kärcher - uma empresa alemã que possui um currículo invejável de atuações na limpeza de patrimônios históricos pelo mundo, como a estátua da Liberdade, nos Estados Unidos - ficou encarregada da lavagem do monumento e das escadarias.

Todo cuidado era pouco para não comprometer o mosaico de pedra-sabão que cobre a estátua. Com acompanhamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN -, e baseado no resultado de diversos testes, ficou definido que seria utilizada apenas água pura.

Até mesmo a quantidade de cloro foi dosada. A porcentagem adicionada era necessária, apenas, para purificar a água, sem deixar resíduos. Para a limpeza da estátua, foram usadas máquinas especiais que controlam a pressão e podiam produzir um jato de dez bar (unidade de medida de pressão) que, de tão suave, é chamado de névoa úmida. Tudo isso, para evitar um desgaste dos pequenos triângulos de pedra-sabão que revestem o monumento.

Recuperação do mosaico
A primeira fase do projeto permitiu uma nova e cuidadosa análise do monumento para procurar por problemas e falhas. A empresa Concrepoxi, que apoiou o projeto, foi a responsável pela tarefa. Ao todo, os técnicos recuperaram sete metros quadrados de superfície, divididos em vários pontos espalhados pelo corpo do Cristo Redentor. Um trabalho que exigiu sangue frio para enfrentar os andaimes e a altura. Mas para muitos funcionários da obra, como José Cícero Magalhães, que chama a estátua carinhosamente de "Santo", essa foi uma tarefa inesquecível.

Tudo avaliado, foi preciso colocar um novo mosaico de pedra-sabão nas regiões que sofreram reparos. É possível perceber esse trabalho na alteração da cor em várias partes do corpo da estátua. A diferença se deve à tonalidade das novas pedras, que não possuem o mesmo verde original. Em se tratando de patrimônio histórico, essas são marcas da história e das ações de preservação do monumento.


Nova iluminação
Uma parceria entre a General Electric - que doou o equipamento ao Cristo Redentor - e a Rioluz - que desenvolveu o projeto de iluminação - deixou o monumento mais visível e bonito. A estátua ganhou lâmpadas multivapor metálico de 1000 watts. De última geração e com elevado índice de reprodução de cores, além de filtros que suprimem a radiação ultra-violeta, elas emitem uma luz branca que valoriza o tom esverdeado, original do Cristo Redentor.

O monumento também saiu ganhando durante o dia. As antigas estruturas que suportavam os 44 projetores deram lugar a outras, menores, com apenas 16. O novo sistema tem ainda uma outra vantagem, pois proporciona uma economia de 30% de energia elétrica. O projeto também definiu um outro local para a instalação do equipamento: fora do mirante e abaixo do nível do chão. O objetivo é destacar apenas a estátua e não interferir na visão do Cristo.

A nova iluminação também vem acompanhada de uma preocupação com o meio ambiente. Os projetores têm filtros anti-ultravioleta e anti-infravermelho para reduzir a emissão dessas faixas de radiação eletromagnética a níveis inferiores àqueles produzidos pelo antigo sistema. Cuidados como manter em duplicidade o conjunto de projetores também foram tomados. Assim, uma eventual queima de lâmpadas não interferirá no resultado final.

A falta de energia elétrica também não vai deixar o Cristo Redentor apagado. Para evitar qualquer imprevisto, o novo sistema é dotado de um gerador de 36 KVA, que aciona o conjunto de projetores em stand by e suporta um período de até 50 horas.